Desvendando a Forense Digital
Conhecendo a computação forense
Computação Forense à primeira vista
Se você já se perguntou como investigadores conseguem recuperar arquivos deletados, encontrar evidências em computadores ou descobrir se um arquivo foi alterado, a resposta está na computação forense. É uma área fascinante que mistura tecnologia com investigação, e neste texto vou explicar os conceitos fundamentais pra quem está começando a se interessar pelo assunto.
O que é e pra que serve
A computação forense é, no fim das contas, a arte de investigar dados digitais. O objetivo é encontrar evidências ou informações relevantes pra casos judiciais, criminais ou até administrativos. Isso vai desde copiar dados de um HD sem mexer em nada, até recuperar aquele arquivo que alguém jurou que tinha “deletado pra sempre” (spoiler: deletar não é tão permanente quanto parece, e é aí que a mágica acontece).
Ao longo do texto, vou te mostrar os principais tópicos e etapas dessa área, sempre explicando de um jeito que faça sentido mesmo pra quem nunca mexeu com isso. Se você já tem alguma experiência, aproveite pra revisar conceitos e, quem sabe, pegar algum detalhe novo.
Aquisição de imagem
A primeira etapa da computação forense é chamada de aquisição de imagem. Basicamente, é o momento de copiar os dados de um dispositivo de armazenamento, como um HD ou SSD, para outro meio, tipo um pendrive ou um CD. Mas não é só dar um Ctrl+C e Ctrl+V: essa cópia precisa ser fiel, íntegra, sem alterar nada do original. Pra garantir isso, usamos ferramentas específicas que preservam todas as características dos dados, e ainda aplicamos técnicas como o hashing de arquivos pra garantir que nada foi modificado no processo.
Hashing de arquivos
Hashing de arquivos é uma técnica que gera um código único pra cada arquivo, chamado de hash ou resumo criptográfico. Esse código é uma sequência de caracteres que representa o conteúdo do arquivo, e muda completamente se qualquer coisa for alterada. É como se fosse a impressão digital do arquivo.
Por exemplo, se um arquivo tem o hash 1234567890abcdef e você muda uma letra, o hash vira outro completamente diferente, tipo 0987654321fedcba. Por isso, o hashing é usado pra garantir que um arquivo não foi modificado: basta comparar os hashes antes e depois da cópia.
Principais algoritmos de hash
Existem vários algoritmos de hash, cada um com suas características. O MD5, por exemplo, gera um hash de 128 bits (32 caracteres hexadecimais) e é bem rápido, mas já foi quebrado criptograficamente, então não serve pra segurança séria, só pra conferir integridade simples. O SHA-1 é um pouco mais seguro, gera 160 bits (40 caracteres), mas também já foi comprometido e está sendo deixado de lado. O SHA-256, que faz parte da família SHA-2, gera 256 bits (64 caracteres), é mais seguro que os anteriores e muito usado em blockchain, criptomoedas e investigações forenses. O SHA-3 (Keccak) é a geração mais nova, ainda mais resistente a ataques, com variações de 224, 256, 384 e 512 bits, e deve ser o futuro da criptografia hash.
Além de garantir integridade, o hashing também serve pra identificar arquivos duplicados ou maliciosos. E tem um detalhe importante: a chamada cadeia de custódia (Chain of Custody). É fundamental manter um registro detalhado de todos os hashes gerados e quando foram criados, pra garantir que as evidências não foram adulteradas durante a investigação.
Outra ocasião que utiliza-se de hashing é em armazenamento de senhas em banco de dados. Não seria prudente armazenar dados sensíveis de forma aberta e sem proteção. Para criar exemplos práticos de hash, você pode ir até a minha ferramenta
Cryptoole gerar a hash de qualquer coisa que escrever, podendo escolher entre os tipos MD5, SHA-1, SHA-256 e SHA3-256.
Análise de arquivos
Depois de copiar os dados, vem a etapa de análise de arquivos. Aqui, o objetivo é examinar tudo que foi copiado pra encontrar informações relevantes pra investigação. Dá pra fazer isso manualmente, olhando arquivo por arquivo, ou usando ferramentas que ajudam a visualizar, filtrar, classificar e extrair dados. Nessa análise, você pode olhar pro tipo do arquivo (documento, imagem, vídeo, áudio…), pro formato (PDF, JPG, MP4, MP3…), pro conteúdo (texto, imagem, som…) e pros metadados (informações extras como autor, data de criação, localização geográfica e por aí vai).
Recuperação de arquivos
A recuperação de arquivos é aquela etapa em que tentamos trazer de volta dados que foram apagados ou corrompidos nos dispositivos de armazenamento. Muita gente acha que, ao deletar um arquivo, ele some pra sempre, mas na verdade o sistema só marca aquele espaço como livre pra ser sobrescrito. Enquanto isso não acontece, dá pra recuperar o arquivo usando ferramentas que conseguem ler esses dados “escondidos”. Claro, a recuperação depende do tipo de dispositivo e do sistema operacional, então é sempre bom entender como cada tecnologia funciona pra escolher a melhor abordagem.
Pra facilitar, vou dar um breve resumo sobre os discos rígidos de armazenamento, porque isso faz toda diferença na hora de recuperar arquivos.
Ferramentas de recuperação
Algumas das ferramentas mais conhecidas e utilizadas na computação forense para recuperação de arquivos:
R-STUDIO: É uma das melhores ferramentas no mercado para recuperação de dados e possui duas versões, a paga e a gratuita, sendo compatível com três sistemas operacionais: Windows, Mac e Linux. Além disso, suporta Desktops, IOS e mantém suporte a dispositivos baseados na web.
DMDE: É mais uma ferramenta de recuperação de dados em discos, mas que possui recursos como editor de disco, gerenciador de partição, cria imagens e clone de discos, recupera arquivos de painel atual, além de fazer a reconstrução de RAID.
Magnet Forensics: Empresa por trás de suítes forenses como AXIOM e IEF, que oferece a organizações dos setores público e privado uma forma de aquisição e análise de evidências digitais (computador, mobile e nuvem) para combater os crimes atuais.
Wondershare Recuperar: É uma ferramenta confiável que pode ajudá-lo a realizar a recuperação de dados forenses com facilidade.
AccessData: É uma ferramenta amplamente utilizada em tribunais, governos, exércitos e outros locais altamente confidenciais.
X-Ways: É um programa que oferece uma grande variedade de ferramentas que ajudam no processo de recuperação de dados forenses.
Tecnologias BlackBag: Suíte de forense digital (hoje parte da Cellebrite), voltada à aquisição e análise de discos e dispositivos, com ferramentas como o BlackLight para exame forense em Mac e Windows.
Cellebrite: Suíte de extração e análise forense, referência de mercado em forense mobile (linha UFED), usada para extrair e analisar dados de smartphones e outros dispositivos.
CERT: É uma ‘Ferramentas de Triagem’ confiável que pode ajudá-lo a realizar a recuperação de dados forenses com facilidade.
SIFT: É um programa que oferece uma grande variedade de ferramentas, incluindo log2timeline para gerar uma linha do tempo a partir de logs do sistema, Scalpel para file carving (recuperação/extração de arquivos a partir de suas assinaturas em dados brutos), Rifiuti para examinar a lixeira e muito mais.
Atenção: Tentativas excessivas de recuperação e/ou uso incorreto de ferramentas para recuperação de dados dos discos rígidos, sistemas RAID, pendrives e várias outras mídias de armazenamento de dados, podem agravar o problema nas mídias físicas. Portanto, o conhecimento de cada ferramenta para um determinado trabalho e cenário faz toda a diferença para evitar danos adicionais aos dispositivos de armazenamento durante a recuperação de dados.
Live Forensics vs Dead Forensics
A Live Forensics (forense ao vivo) é a análise feita com o sistema ainda ligado e operando durante a investigação. A grande vantagem disso é capturar os dados voláteis (memória RAM, processos ativos), observar atividade maliciosa em tempo real, preservar o estado das sessões ativas e ainda analisar as conexões de rede que estão de pé. O preço é que você acaba mexendo na cena: a coleta pode alterar evidências, o sistema pode estar comprometido durante a análise, e por isso exige mão experiente.
Já a Dead Forensics (forense post-mortem) é a análise feita com o sistema desligado ou em cópias forenses dos dados. Aqui a vantagem é justamente o oposto: as evidências não são alteradas durante a análise, o ambiente é controlado e estável, dá pra fazer uma análise profunda e meticulosa, e é melhor pra documentação legal. Em compensação, você perde os dados voláteis, não consegue observar as atividades dinâmicas e os resultados podem demorar mais.
Na live, ferramentas comuns são o Volatility (análise de memória RAM), o YARA (detecção de malware) e o OSQuery (consultas em tempo real do sistema). E na hora de escolher entre uma e outra: live pra ataques em andamento e sistemas críticos que não podem ser desligados; dead pra investigações detalhadas, casos judiciais e análise de malware.
Forense Mobile
A computação forense móvel é uma área especializada que lida com a extração e análise de dados de dispositivos móveis como smartphones e tablets.
Celular dá um trabalho à parte, com vários desafios próprios. Os aparelhos modernos usam criptografia de hardware forte, cada sistema (iOS, Android, Windows Phone) tem suas peculiaridades, tem PIN, senha, biometria e padrão de bloqueio de tela pra furar, os sistemas e aplicações mudam o tempo todo com as atualizações constantes, e boa parte dos dados já está sincronizada na nuvem automaticamente.
Quanto aos métodos de extração, existem três. A extração lógica pega os dados acessíveis pela interface normal do dispositivo: é menos invasiva e mais rápida, mas fica limitada pelos controles de acesso do sistema. A extração física é uma cópia bit-a-bit completa da memória, que traz mais dados (incluindo arquivos deletados) porém exige root/jailbreak ou exploits. E a extração de sistema de arquivos acessa o filesystem direto, ficando num meio termo entre a lógica e a física.
As ferramentas especializadas aqui são o Cellebrite UFED (padrão da indústria para extração móvel), o Oxygen Detective Suite (análise forense de dispositivos móveis), o XRY (extração e análise de telefones celulares) e o MSAB (mobile forensics e análise).
Forense em Nuvem (Cloud Forensics)
Com a migração massiva para a nuvem, a forense digital precisou se adaptar aos novos desafios dos ambientes distribuídos.
A nuvem complica tudo por algumas características próprias: os dados podem estar espalhados por múltiplos data centers (distribuição geográfica), as instâncias nascem e morrem rapidamente (virtualização), os recursos mudam dinamicamente (elasticidade), a infraestrutura é compartilhada por vários clientes (multi-tenancy) e ainda tem o problema das jurisdições diferentes, já que as leis variam entre países.
Os tipos de forense em nuvem mudam conforme o modelo de serviço. No Software-as-a-Service (SaaS) — Gmail, Office 365, Salesforce — o foco vai pros logs de aplicação e dados de usuário. No Platform-as-a-Service (PaaS) — Google App Engine, Heroku — você analisa código e configurações de aplicação. E no Infrastructure-as-a-Service (IaaS) — AWS, Azure, Google Cloud — entram os snapshots de VMs, logs de sistema e os network flows.
Cada provedor tem suas ferramentas e técnicas: na AWS são o CloudTrail, VPC Flow Logs e S3 access logs; na Azure, o Activity Log, NSG Flow Logs e Storage Analytics; no Google Cloud, o Cloud Logging, VPC Flow Logs e Access Transparency. E ainda tem as ferramentas terceiras, como CloudFringe e Magnet AXIOM Cloud.
Os desafios legais e técnicos aqui ficam por conta de manter a cadeia de custódia em ambientes distribuídos, lidar com a volatilidade dos dados numa infraestrutura elástica, o acesso limitado a logs e dados do provedor, e as jurisdições múltiplas com leis conflitantes.
Anti-Forensics
Anti-forensics são técnicas e ferramentas utilizadas para impedir, dificultar ou enganar investigações forenses. É importante que analistas forenses conheçam essas técnicas para melhor combatê-las.
As técnicas caem em alguns grupos. Tem a ocultação de dados, que envolve esteganografia (dados escondidos em imagens, áudios), partições ocultas e sistemas de arquivos alternativos. Tem a destruição de evidências, com sobrescrita segura de dados, destruição física de mídias e uso de ferramentas como DBAN e Eraser. Tem a ofuscação, que usa criptografia forte, nomes de arquivos enganosos e timestamps falsificados. E por fim as técnicas de detecção de análise, em que o malware detecta máquinas virtuais, verifica se há ferramentas forenses em execução e se comporta de forma diferente quando percebe que está sendo analisado.
Do outro lado, o investigador tem suas contramedidas. A documentação rigorosa registra todos os passos da investigação; as múltiplas ferramentas servem pra validação cruzada usando software diferente; a análise de metadados procura inconsistências temporais; a análise comportamental identifica padrões suspeitos; e a forense de rede captura as comunicações antes da criptografia.
Ferramentas comuns de anti-forensics:
- BleachBit: Limpeza segura de dados
- CCleaner: Remoção de traces
- TrueCrypt/VeraCrypt: Criptografia forte (o TrueCrypt foi descontinuado em 2014; hoje o VeraCrypt é o sucessor ativo recomendado)
- Timestomp: Modificação de timestamps
Considerações éticas: Investigadores devem conhecer anti-forensics para defesa, não para obstrução da justiça.
Sobre HD e SSD
Um HD (hard disk) é um dispositivo de armazenamento que usa discos magnéticos para gravar os dados (mais próximo de uma vitrola). Um SSD (solid state drive) é um dispositivo de armazenamento que usa chips de memória flash para gravar os dados (mais próximo de um pendrive).
A funcionalidade da escrita e leitura de dados desses dois tipos de armazenamento têm diferenças importantes no seu funcionamento, como em termos de velocidade e durabilidade.
O HD, ou
disco rígido, é uma memória não volátil que usa discos magnéticos para guardar as informações. Esses discos giram em alta velocidade e são lidos por um braço mecânico que se move sobre eles (assim como em uma vitrola com agulha sobre o disco, e por isso a fragilidade o qual qualquer pancada tem risco de corromper e comprometer dados). O processo de escrita e leitura é feito por meio da alteração ou detecção da magnetização dos pontos na superfície dos discos.O SSD, ou
unidade de estado sólido, é uma memória não volátil que usa ‘células’ de memória flash para armazenar os dados. Essas células são acessadas eletronicamente por um controlador de memória que executa as funções do drive. O processo de escrita e leitura é feito por meio da aplicação ou verificação de uma carga elétrica nas células.
Os dois dispositivos têm vantagens e desvantagens em relação à recuperação de dados.
Um HD geralmente tem mais capacidade de armazenamento e é mais barato que um SSD. No entanto, ele é mais lento e mais suscetível a danos físicos. Além disso, ele usa uma técnica chamada fragmentação para otimizar o espaço no disco. A fragmentação consiste em dividir os arquivos em pedaços menores e distribuí-los pelo disco, podendo apenas dificultar a recuperação dos arquivos apagados ou corrompidos.
Um SSD geralmente tem menos capacidade de armazenamento e é mais caro que um HD. No entanto, ele é mais rápido e mais resistente a danos físicos. Além disso, ele usa uma técnica chamada trim para otimizar o desempenho do dispositivo, que consiste em apagar os dados marcados como livres de forma definitiva e isso pode impedir a recuperação dos arquivos apagados ou corrompidos.
Então, resumidamente, a principal diferença entre o HD e o SSD é que o primeiro tem partes móveis e mecânicas, enquanto o segundo é todo formado por circuitos integrados. Por isso o SSD acaba sendo mais rápido, silencioso e resistente do que o HD, e também geralmente mais caro (atualmente deu uma boa melhorada). Na hora de escolher entre um HD e um SSD, é preciso levar em conta as suas necessidades e preferências. Se você busca mais desempenho (não estamos falando de ganho de FPS), agilidade e segurança, o SSD pode ser uma boa opção. Se você precisa de mais espaço, economia e compatibilidade, o HD pode ser mais adequado. A recomendação é uso de SSD sempre que possível.
Sobre Windows e Linux
Windows e Linux são dois sistemas operacionais que podem ser usados nos dispositivos de armazenamento, os quais também têm vantagens e desvantagens em relação à recuperação de dados.
O Windows é o sistema operacional mais popular e mais fácil de usar. No entanto, ele usa um sistema de arquivos chamado NTFS, que é mais complexo e menos flexível que outros sistemas. O NTFS usa uma estrutura chamada MFT (master file table), que armazena as informações sobre os arquivos, como o nome, o tamanho, a localização, etc. Se a MFT for danificada, a recuperação dos arquivos pode ser impossível. O Linux é o kernel; a distribuição (Ubuntu, Debian, Fedora, etc.) é o sistema operacional construído em torno desse kernel - geralmente gratuito - e bem usado por profissionais e especialistas. No entanto, como estamos falando sobre diversas distribuições que operam com o Linux, acaba que vários sistemas de arquivos podem ser utilizados, como o EXT4, o XFS, o BTRFS e etc. Em geral, esses sistemas são mais simples e mais flexíveis que o NTFS, já que utilizam uma estrutura chamada inode, que armazena as informações sobre os arquivos, como o tipo, o dono, as permissões, etc. Se o inode for danificado, a recuperação dos arquivos pode ser possível usando ferramentas que conseguem reconstruir a estrutura.
Ambos os sistemas possuem ferramentas e opções de criptografia geral do disco, precisando de uma senha para poder bootar e utilizar o disco, ainda podendo precisar da senha de usuário para entrar no sistema - caso assim esteja configurado.
Queima de arquivo
O apagamento seguro é uma técnica que permite eliminar os dados de forma definitiva e irreversível dos dispositivos de armazenamento.
Essa técnica consiste em sobrescrever os dados várias vezes com padrões aleatórios ou zeros, impedindo que eles sejam recuperados por qualquer ferramenta. O apagamento seguro pode ser feito usando programas específicos ou comandos do sistema operacional.
Outra técnica utilizada é a queima e/ou destruição do dispositivo de armazenamento, assim realmente não teria forma de recuperar os dados.
Auditoria de sistema
A auditoria de sistema é a etapa em que se verifica as configurações e as atividades realizadas no sistema operacional do dispositivo de armazenamento.
Essa auditoria pode revelar informações importantes para a investigação, como:
- Os usuários cadastrados no sistema e seus perfis
- Os programas instalados e executados no sistema
- Os arquivos acessados, modificados ou excluídos no sistema
- Os registros de eventos do sistema (logs)
- As conexões de rede do sistema
- As senhas salvas no sistema
Para realizar a auditoria, são usadas ferramentas que permitem acessar e analisar tais informações, como o Regedit, o Event Viewer, o Netstat, o Nirsoft, entre outros.
Criptoanálise
Primeiro vamos falar brevemente sobre o que é criptografia.
A criptografia é uma técnica que permite transformar os dados em um código incompreensível para quem não tem a chave ou a senha para ‘descriptografá-los’. Nesse sentido, ela pode ser usada para proteger os dados de acessos não autorizados ou para ocultar informações sensíveis ou ilícitas.
Já a criptoanálise é uma etapa em que se tenta decifrar ou quebrar os dados que foram criptografados ou protegidos por algum método de segurança.
Existem vários tipos de criptografia, como:
- A criptografia simétrica: usa a mesma chave para criptografar e descriptografar os dados. Exemplos: AES, DES e RC4.
- A criptografia assimétrica: usa uma chave pública para criptografar e uma chave privada para descriptografar os dados. Exemplos: RSA, ECC, DSA.
- A criptografia híbrida: usa uma combinação dos dois tipos anteriores. Exemplo: SSL/TLS.
Para realizar a criptoanálise, são usadas ferramentas que permitem tentar descobrir ou forçar as chaves ou as senhas usadas na criptografia, como o John the Ripper, o Hashcat (e até o Wireshark), entre outros.
Análise de esteganografia
Para falar sobre como é a sua análise, precisamos primeiro falar sobre o que de fato ela é.
A Esteganografia é uma técnica que permite esconder informações dentro de outras informações aparentemente inocentes ou irrelevantes, e pode ser usada para evitar a detecção ou a interceptação dos dados por quem não tem a chave correta ou o conhecimento necessário para decifrar a informação escondida. Ela é frequentemente usada para comunicações seguras, proteção de dados e várias outras aplicações onde a privacidade e a segurança são importantes, além de poder ser utilizada ao arrepido da lei em determinadas situações.
Já a Análise de Esteganografia é uma técnica de computação forense que visa detectar e extrair informações ocultas em arquivos digitais, como imagens, áudios, vídeos ou textos, isto é, uma etapa importante de uma investigação forense em que se tenta detectar ou extrair os dados que foram escondidos dentro de outros dados usando algum método de ocultação. Essas informações podem ser usadas para fins maliciosos, como espionagem, sabotagem, fraude ou terrorismo. Por isso, é importante conhecer os métodos e ferramentas que permitem realizar essa análise e revelar os segredos escondidos.
Métodos de esteganografia
Um dos métodos mais comuns de esteganografia é a inserção de bits de informação em uma imagem, alterando levemente sua cor ou brilho. Essa alteração é imperceptível ao olho humano, mas pode ser detectada por um programa de computador que analisa o espectrograma da imagem, ou seja, a representação gráfica das frequências e intensidades dos pixels. Um exemplo de ferramenta que faz essa análise é o Stegsolve, que permite visualizar diferentes camadas da imagem e identificar possíveis padrões ou mensagens ocultas.
Outro método é usar um editor hexadecimal para modificar diretamente os dados binários de uma imagem, inserindo um texto codificado em uma área específica do arquivo. Um editor hexadecimal é um programa que permite visualizar e editar os dados em formato hexadecimal, que é uma forma de representar números binários usando 16 símbolos (0 a 9 e A a F). (Um exemplo de editor hexadecimal é o HxD, que permite abrir qualquer tipo de arquivo e alterar seus bytes livremente)
Existem também programas específicos para esconder informações em arquivos, como o OpenPuff e o Quick Stego.
- O
Quick Stegoé um software mais simples, que permite esconder apenas textos em imagens, usando um método chamado LSB (Least Significant Bit), que consiste em substituir o bit menos significativo de cada pixel pelo bit correspondente do texto. - Já o
OpenPuffé um software que usa técnicas avançadas de criptografia e compressão para ocultar vários tipos de arquivos em imagens, áudios ou vídeos. Ele também permite escolher um nível de segurança e uma senha para proteger os dados.
Uma outra forma de esconder informações em imagens é usar QR Code.
Códigos QR (Quick Response) são códigos de barras bidimensionais que podem armazenar dados alfanuméricos. Este pode ser gerado por um site ou aplicativo, como o QR Code Generator, e inserido em uma imagem usando um editor gráfico, como o Photoshop. Para ler o código, basta usar um leitor específico, como o QR Code Reader, que pode ser instalado em um smartphone ou tablet.
Um método mais sofisticado de esteganografia é usar textos em spam para ocultar mensagens. Esse método SpamText consiste em gerar textos aleatórios ou sem sentido, usando palavras-chave relacionadas a um assunto específico, como medicamentos, viagens ou negócios. Esses textos são enviados por e-mail ou publicados em sites ou redes sociais, com o objetivo de despistar os filtros anti-spam e atrair a atenção dos destinatários. No entanto, esses textos podem conter informações codificadas, que podem ser decifradas por quem conhece o algoritmo usado para gerá-los. Um exemplo de ferramenta que faz isso é o Spam Mimic, que permite escrever e decodificar mensagens usando vários tipos de spam.
Além disso tudo, existe uma forma muito simples de esteganografia que qualquer usuário normal de windows pode fazer para esconder arquivos em imagens. Esse método consistem em usar o WinRAR.
Como já devem conhecer, WinRar é um ferramenta que permite compactar e descompactar arquivos em vários formatos, como ZIP ou próprio RAR. Para esconder um arquivo em uma imagem, basta selecionar os dois arquivos no Windows Explorer, clicar com o botão direito do mouse e escolher a opção “Adicionar ao arquivo…”. Na janela que se abre, escolher o formato RAR e marcar a opção “Criar arquivo SFX”. Isso vai gerar um arquivo executável com a extensão .exe e o ícone da imagem original. Para extrair o arquivo oculto, basta executar o arquivo .exe e escolher a pasta de destino.
Como se pode ver, existem vários métodos e ferramentas para realizar a análise de esteganografia, uma técnica importante na computação forense. Essa análise pode revelar informações valiosas para a investigação e solução de crimes cibernéticos, bem como para a proteção da segurança e da privacidade dos usuários. Por isso, é importante estar atento aos sinais de que uma imagem pode conter algo mais do que aparenta, e usar as ferramentas certas pra achar o que está escondido.
Lista de Ferramentas Forense
Segue algumas ferramentas comuns, algumas podendo ser facilmente achadas em distribuições linux com foco em área de segurança ou forense, como Kali.
Volatility: Este Framework é uma coleção de ferramentas, de código livre e gratuita, para análise de memória RAM. Normalmente utilizada em ambientes Linux, e já presente em algumas distribuições, como o Kali Linux.
FTK Imager: É uma ferramenta de visualização e geração de imagens de dados que permite examinar arquivos e pastas em discos rígidos locais, unidades de rede, CDs/DVDs e revisar o conteúdo de imagens forenses ou despejos de memória.
CAINE: Computer Aided Investigative Environment é o Live CD do Linux que contém uma grande quantidade de ferramentas forenses digitais.
HxD: É um editor hexadecimal de fácil utilização que permite realizar edição e modificação de baixo nível de um disco bruto ou da memória principal (RAM).
ExifTool: É um aplicativo de linha de comando usado para ler, gravar ou editar informações de metadados de arquivos.
Sistema IPED: É um programa computacional forense desenvolvido no Brasil, por peritos federais, e mantido por eles. É anterior e mais amplo que qualquer caso específico, tendo sido amplamente usado na investigação da Operação Lava Jato.
Binwalk: É uma ótima ferramenta quando temos uma imagem binária e temos que extrair arquivos embutidos e códigos executáveis deles.
p0f: É uma ferramenta que pode identificar o sistema operacional de um host de destino simplesmente examinando os pacotes capturados.
pdf-parser: É uma ferramenta que analisa um documento PDF para identificar os elementos fundamentais usados no arquivo PDF analisado.
Dumpzilla: É uma ferramenta para extrair todas as informações interessantes e descobrir o máximo de dados forenses possíveis dos perfis de navegadores baseados no Mozilla (Firefox, SeaMonkey, Iceweasel, etc.).
Links referenciais sobre ferramentas forense
Alguns links interessantes para ter de referências sobre as ferramentas.
- 10 ferramentas gratuitas de um perito Forense Digital - Medium: Forense Digital Brasil
- Principais ferramentas de recuperação - Academia Forense Digital
- KALI LINUX - FERRAMENTAS FORENSES
- Kali Linux Ferramentas Forense - Tutorial
- Melhores ferramentas do Kali Linux
- 21 Ferramentas de penetração importantes do Kali
Recomendação de conteúdo
Para começar a estudar forense, você pode estudar através de diversos conteúdos gratuitos e pagos pela internet, ou até matérias específicas e/ou cursos de extensões de uma faculdade. Nunca pare de estudar, sempre busque por mais conhecimento. Talvez você queira até estudar para concurso e trabalhar para a polícia federal como investigador forense digital, isso demandaria bastante estudo não apenas dos conteúdos derivados deste post, mas dos conteúdos do concurso. Um futuro difícil e promissor que pode ser traçado por você, mas calma… um passo de cada vez, sem pular etapas.
Eu tenho algumas recomendações de conteúdos para quem não sabe nada e quer começar:
O livro “Desvendando a Computação Forense” da Novatec é um bom livro até para quem não sabe nada de computação, pois ele passa pelo básico de computação e explica muito bem sobre forense digital, tendo sido escrito por profissionais da área. Boa porta de entrada.
Vídeos do youtube… sim… existe diversos vídeos super bons em conteúdo e gratuitos, também sendo ótimo como porta de entrada.
Um exemplo são aulas disponibilizadas ao público. Diversos professores universitários decidem postar suas aulas gratuitas em canais do youtube, desde gringos a brasileiros, ou até em alguma outra plataforma. Quando eu estudava na UFRJ e fiz a matéria de segurança, meu professor gravava a aula e postava em seu canal do youtube (infelizmente so gravava pela tela do pc, então não tinha ele apontando no quadro sobre o que fala e o audio sempre ficava distante, mas já era algo). Dessa forma quem precisava faltar tinha o conteúdo, além de poder ficar para qualquer entusiasta. Na gringa tem MUITOS professores feras de universidades renomadas que publicam de graça suas aulas no youtube.
Espero que tenham gostado desta publicação. Não sou focado na área de forense e ainda tenho muito que aprender, basicamente tentei escrever o pouco que sei de forma introdutória. Se tiver uma forma melhor de introdução ou até se eu tiver esquecido algo, favor me deixe sabendo. Tente comentar, mandar e-mail ou direct, tanto faz. Abração!
